sexta-feira, 28 de junho de 2013

Golpe, discurso golpista: a inutilidade das previsões, ou: porque perguntar se um golpe é possível é perda de tempo, ou: porque me despedi da futurologia, ou: da diferença entre o porvir como abertura e o futuro previsível do paranoico e do sensato, ou: um lance de dados não abolirá o acaso.

Talvez pelo fato de ser historiador muito interessado em política, algumas pessoas me perguntam: e aí, vai acontecer um golpe? Outros me indicam textos com previsões pretensamente sensatas, comprovando a impossibilidade de um golpe. Diante disso, resolvi resumir nesse texto o que eu penso que a história política e a observação atenta da atualidade podem nos ensinar sobre o assunto.
 1. Qualquer comparação com 1964 deve considerar duas diferenças fundamentais: a força efetiva do anticomunismo como agente catalisador naquela década e a expectativa concreta de que uma revolução estava na ordem do dia. Ou seja: um novo 64 jamais poderia ser um novo 64, teria que ser um outro 64.

 2. Mas, a história – ou melhor, a vida política nem por isso nos deixa de mãos vazias. Ela traz algumas pistas, mesmo que sejam frustrantes para quem espera um prognóstico. Por exemplo, lembremos que os “sinais evidentes do golpe de 1964” só se tornaram realmente evidentes depois do golpe consumado. O que havia antes do golpe era atmosfera golpista, impressões vagas, muita discussão e divergência sobre a real força e intenções dos atores envolvidos. E mesmo aqueles que esperavam com mais certeza a iminência de um golpe (que depois seriam chamados de paranoicos, caso o golpe não se desse) não tinham como saber que o golpe se daria tal como se deu.

 3. O que a história ensina, portanto, é a inutilidade das previsões – quando o assunto é política, os elementos casuais, contingentes e acidentais têm um peso decisivo. A história está mais para Shakespeare: "A vida é uma fábula contada por um Idiota, cheia de Som e Fúria, Significando - Nada"; do que para Hegel: "o real é racional."

 4. O importante, portanto, não é dizer saber se e quando haverá um golpe, e sim observar o eterno retorno do discurso golpista ressentido e tentar medir sua força. Nesse espectro, temos discursos mais claros, inclusive apelando para uma nostalgia com 1964. Outros, mais difusos. Por exemplo, com exigências que só poderiam ser atendidas com medidas com algum grau de força e exceção. Esse discurso permanecerá, se intensificará, envolve ou envolverá grupos sociais com poder suficiente para sustentá-lo? Não sei e não acredito em ninguém que diz saber. Como tampouco ninguém previu a intensidade das manifestações e o momento em que elas aconteceriam e suas motivações.

 5. O estado de direito (nomenclatura que prefiro à de democracia nesse momento e vou dizer o motivo depois) não é o resultado final necessário da história, ao contrário do que dizem alguns discursos que naturalizam a ideia de estado de direito como sinônimo de civilização vencedora. Pelo contrário, se alguma coisa tantos que estão lendo o Agamben da moda no momento podem se lembrar é que: a exceção é a regra, e não o contrário.

 6. Não podemos desprezar o autoritarismo presente nas práticas e nas tradições políticas brasileiras. Curiosamente, se observarmos os veículos de comunicação mais triunfalistas no discurso de que “a democracia brasileira venceu e está consolidada”, notaremos que eles são os mesmos que diziam a mesma coisa... em plena ditadura.

 7. Na minha opinião política: trata-se de menos prognóstico e mais cidadania. E cidadania para além das manifestações. As manifestações são parte importante da vida política, e eu fui a algumas (apenas tomando cuidado de não ir a qualquer uma, organizada por qualquer um via facebook – devo dizer que li coisas no mínimo preocupantes em perfis de alguns organizadores de eventos em facebook e que, aparentemente, passaram a ser considerados líderes políticos porque criaram eventos virtuais). Mas, voltando ao assunto, não se faz uma vida política apenas com marchas e o “povo unido” entoando cânticos. A vida política precisa estar aprofundada no cotidiano, nos fóruns de discussão, na pluralidade das vozes diferentes e no poder efetivo e não meramente teatral da cidadania. Até porque outra coisa pode-se dizer que já se aprendeu a muito tempo e já se esqueceu inúmeras vezes: a distância que separa uma democracia limitada e controlada, como a democracia liberal, de estados de exceção e ditaduras declaradas é muito pequena.

 8. Para encerrar, vou construir um cenário alternativo (não para predizer, e sim para abrir uma brecha no tempo fechado dos fatos consumados), a partir de uma história que me foi contada. Numa manifestação alguns provocadores (talvez de extrema direita e usando tática sobejamente conhecida da extrema direita, quem sabe?) jogavam água em policiais. Os policiais não reagiram e alguns manifestantes se colocaram à sua frente, protegendo-os da água. Partindo da constatação de que nossa polícia vândala tem demonstrado novamente os problemas derivados de sua militarização, é possível construir um cenário em que a polícia reagisse. E a violência se alastrasse. E mais pessoas (de classe média) morressem – porque ao que parece a repercussão é menor e aceita com certa indiferença quando morrem pobres. Talvez, um grupo maior de manifestantes resolvesse invadir, de fato, o Congresso. E a violência policial se intensificasse. O fato de não termos um Carlos Lacerda (pelo menos evidente) no horizonte, basta para dizer que uma situação de ruptura não poderia ser instaurada? Inclusive, aposto todas as minhas fichas que é com isso que esses pequenos grupos de extrema direita contam. Mas, para encerrar com outra citação literária: um lance de dados não abolirá o acaso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Relato de Pesquisadora de Historia Antiga

Olá pessoal, 


no link abaixo um relato muito sincero ( de Thais Rocha da Silva em artigo exclusivo para o Café História) sobre as dificuldades e vantagens ser brasileiro e fazer pesquisa em história antiga ( aqui no caso, egiptologia). Ela fala sobre a ansiedade de aproveitar o material das grandes bibliotecas estrangeiras ( quando se pode ir até elas),  dos requisitos  necessários (conhecimento das línguas "mortas" para a leitura das "fontes primárias" e das modernas para os comentadores), dos preconceitos na própria universidade etc. Enfim,  texto para historiador aprendiz ler  com muito gosto!

http://cafehistoria.ning.com/page/artigo-exclusivo-egito-made-in-brazil?xg_source=msg_mes_network

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Hyden White na França



A relação entre narrativa e história tornou-se um debate entre os filósofos e historiadores de língua inglesa a partir da metade da década de 1960 com a publicação simultânea de trabalhos de W. B. Gallie, Morton White e Arthur Danto. Eles enfatizaram o papel da narrativa no trabalho dos historiadores e foram muito criticados. O estudo da narrativa na literatura, evidentemente, já era desenvolvido há muito tempo e autores como Northrop Frye, Vladimir Propp, Roland Barthes e outros, produziram estudos significativos sobre a estrutura da narrativa. As duas linhas de estudo, a da filosofia e a da literatura, se desenvolviam paralelamente, sem grande influência recíproca até a publicação de Hayden White com o livro Metahistória: A imaginação histórica na Europa do século XIX em 1973, marco importante para o chamado “giro linguístico”.
White identifica três dimensões do labor historiográfico (epistemológica, estética e moral) e explica que, por ser uma estrutura verbal escrita em prosa, seu conteúdo é essencialmente poético (isto é, lingüístico). Ele distingue três estratégias de “impressão explicativa”: explicação por argumentação formal, explicação por elaboração de enredo e explicação por implicação ideológica. A combinação dessas estratégias constrói o estilo de escrita do historiador ou do filósofo da história e concretiza o ato que possibilita o uso de teorias específicas para explicar o passado. Para validar sua teoria, White examinou os estilos dos historiadores Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt e dos filósofos da história Hegel, Marx, Nietzsche e Croce.
Tendo esclarecido seus parâmetros de avaliação, o autor lança algumas “bombas”, heterodoxias que ele reitera ao longo de cada seção do texto. Para ele o trabalho do historiador é simultaneamente poético, protocientífico e filosófico e relembra que outros pensadores no século XX também questionaram a pretensão científica de ser da historia e o caráter fictício das reconstruções históricas. Logo, não há paradigma para avaliar se um relato é mais realista que outro. A melhor maneira de avaliar o relato histórico é pelos fundamentos estéticos (formais) e morais e não os epistemológicos.
Quanto à relação entre história e filosofia da história, a diferença está na ênfase e não quanto ao conteúdo uma vez que os filósofos da história exteriorizam o que permanece latente nos historiadores. Por conseguinte todo trabalho histórico tem uma base meta-histórica e esta constitui todas as filosofias da história que mantém todo o trabalho do historiador. Pela semelhança com os filósofos da linguagem, os filósofos da história foram os mais habilitados para compreender os fundamentos lingüísticos, porque qualquer pensamento não científico permanece preso ao mundo lingüístico para expressar-se.
As teses do “giro lingüístico” permaneceram pouco conhecidas na França entre os historiadores até o fim da década de 1980.
Porém desde 1967, Roland Barthes se questionou se a narração dos acontecimentos passados diferia da narração imaginária encontrada nos romances. Do mesmo modo, em 1968, Focoult propôs a análise da história como um discurso e, em 1971, Paul Veyne observou que a história era “um romance verdadeiro”, uma narrativa verídica. As proposições de De Certau (ele definiu a historiografia como “a combinação de um lugar social, de ‘práticas científicas’ e de uma escrita”) permaneceram isoladas na historiografia francesa.
Ou seja, todas essas análises não receberam muita atenção dos historiadores franceses da época. Maior repercursão ao giro lingüístico na França se iniciou na década de 1980, e proliferou para a de 90, a partir da publicação de Tempo e Narrativa de Paul Ricceur que aplicou o “método de White” na análise da obra dos Annales. Entretanto, até hoje Metahistória não foi traduzido para o francês!


 BIBLIOGRAFIA

CARR, David. Time, Narrative, and History. Bloomington: Indiana University Press, 1991.P.7-8.
DELACROIX, Christian; DOSSE, François & Garcia, Patrick. Correntes históricas na França: séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012. Pp. 324-326.
SUTERMEISTER, Paul. “A meta-história de Hayden White: uma crítica construtiva à ‘ciência’ histórica.” Revista Espaço Acadêmico, junho 2009 Nº 97, pp.43-48.
WHYTE, Hyden. “Prefácio” e “Introdução: A poética da História”, in: Metahistória: A imaginação histórica na Europa do século XIX. São Paulo: Edusp, 2008.

sábado, 27 de outubro de 2012

OAB/SP repudia declarações de historiador sobre a atuação de advogados


A OAB/SP divulgou nota pública repudiando declarações feitas pelo historiador Marco Antônio Villa, à TV Cultura, sobre a atuação de advogados. De acordo com o presidente em exercício da seccional paulista, Marcos da Costa, Villa teria insinuado "que há uma espécie de compadrio entre advogados e magistrados".
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"NOTA PÚBLICA
A OAB SP repudia, veementemente, as afirmativas do historiador Marco Antônio Villa sobre o papel exercido pelos advogados na defesa dos cidadãos. É inadmissível que um professor tenha uma visão tão distorcida sobre o direito de defesa e o contraditório. Na verdade, as referidas declarações prestam um desserviço ao Estado Democrático de Direito porque ignoram o papel do advogado no tripé da Justiça, insinuando que há uma espécie de compadrio entre advogados e magistrados e, pior, insinuando haver uma “sociedade indireta do advogado com o corrupto”.
O advogado exerce múnus público ao assegurar a todos os cidadãos o respeito aos seus direitos e garantias constitucionais, dentro do devido processo legal. As afirmativas desarrazoadas do historiador deixam subentender, até mesmo, que defende a negativa ao direito de defesa de acusados, direito este assegurado pela Constituição Federal a todos, sem exceção, independentemente do delito que lhes seja atribuído, por ser inerente aos regimes democráticos.
A visão do historiador confunde a figura do advogado com a de seus clientes. Sem dúvida, a corrupção provoca reações de inconformismo, mas sua imputação não pode excluir do acusado o seu direito à defesa.
Tais afirmações denotam, ainda, desconhecimento sobre a missão do advogado que é de pugnar pela defesa dos direitos de seus patrocinados e buscar um julgamento justo, a despeito das acusações que recaiam sobre os mesmos ou da dimensão do clamor público contra os atos que praticaram. O advogado sabe mais do que qualquer outro profissional os males que a intolerância pode acarretar.
Certamente, o professor Villa pode - assim como todos devem fazê-lo - criticar e discorrer sobre os prejuízos que a corrupção causa ao país; mas não pode colocar no mesmo patamar os advogados que instrumentalizam a defesa e os acusados desse gravíssimo delito. Durante a Revolução Francesa, os advogados foram banidos para agilizar os julgamentos e levar mais cabeças à guilhotina. No Brasil de hoje, não podemos cogitar sobre tal prática. Vivemos em um Estado Democrático de Direito, onde o exercício da advocacia é pleno e não poder ser vilipendiado.
São Paulo, 25 de outubro de 2012.
Marcos da Costa
Presidente em exercício da OAB SP"
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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

As salsichas e a retórica: uma passagem do 18 Brumário

Numa conhecida passagem do 18 Brumário, Marx dizia que "nas lutas históricas deve-se distinguir as frases e as fantasias dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si do que são na realidade". Vejamos o que ele dizia sobre o papel revolucionário dos agentes do Estado, incluindo os que atuavam nas universidades: "Esse Poder Executivo, com sua imensa organização burocrática e militar, com sua engenhosa máquina do Estado, abrangendo amplas camadas com um exército de funcionários totalizando meio milhão,além de mais meio milhão de tropas regulares, esse tremendo corpo de parasitas que envolve como uma teia o corpo da sociedade francesa e sufoca todos os seus poros, surgiu ao tempo da monarquia absoluta, com o declínio do sistema feudal, que contribuiu para apressar. Os privilégios senhoriais dos senhores de terras e das cidades transformaram-se em outros tantos atributos do poder do Estado, os dignitários feudais em funcionários pagos e o variegado mapa dos poderes absolutos medievais em conflito entre si, no plano regular de um poder estatal cuja tarefa está dividida e centralizada como em uma fábrica. A primeira Revolução Francesa, em sua tarefa de quebrar todos os poderes independentes - locais, territoriais, urbanos e provinciais - a fim de estabelecer a unificação civil da nação, tinha forçosamente que desenvolver o que a monarquia absoluta começara: a centralização,mas ao mesmo tempo o âmbito, os atributos e os agentes do poder governamental. Napoleão aperfeiçoara essa máquina estatal. A monarquia legitimista e a monarquia de julho nada mais fizeram do que acrescentar maior divisão do trabalho, que crescia na mesma proporção em que a divisão do trabalho dentro da sociedade burguesa criava novos grupos de interesses e, por conseguinte,novo material para a administração do Estado. Todo interesse comum (gemeinsame) era imediatamente cortado da sociedade,contraposto a ela como um interesse superior, geral (allgemeins),retirado da atividade dos próprios membros da sociedade e transformado em objeto da atividade do governo, desde a ponte, o edifício da escola e a propriedade comunal de uma aldeia, até as estradas de ferro, a riqueza nacional e as UNIVERSIDADES da França.Finalmente, em sua luta contra a revolução, a república parlamentar viu-se forçada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os recursos e a centralização do poder governamental.Todas as revoluções aperfeiçoaram essa máquina, ao invés de destroçá-la. Os partidos que disputavam o poder encaravam aposse dessa imensa estrutura do Estado como o principal espólio do vencedor. Mas sob a monarquia absoluta, durante a primeira Revolução, sob Napoleão, a burocracia era apenas o meio de preparar o domínio de classe da burguesia. Sob a Restauração, sob Luís Filipe, sob a república parlamentar, era o instrumento da classe dominante, por muito que lutasse por estabelecer seu próprio domínio. Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar-se completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou a tal ponto a sua posição em face da sociedade civil que lhe basta ter à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um aventureiro surgido de fora, glorificado por uma soldadesca embriagada,comprada com aguardente e salsichas e que deve ser constantemente recheada de salsichas. Daí o pusilânime desalento,o sentimento de terrível humilhação e degradação que oprime a França e lhe corta a respiração".

Uma teoria do significado

“Não sei o que quer dizer com ‘glória’”,disse Alice. Humpty Dumpty sorriu, desdenhoso.“Claro que não sabe… até que eu lhe diga. Quero dizer ‘é um belo e demolidor argumento para você!’” “Mas ‘glória’ não significa ‘um belo e de-molidor argumento’”, Alice objetou. “Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que quero que signifique: nem mais nem menos.” “A questão é”, disse Alice, “se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.” “A questão”, disse Humpty Dumpty, “é saber quem manda — só isto.” Do famoso diálogo entre Alice e Humpty Dumpty. Em: Através do espelho e o que Alice encontrou por lá.

domingo, 13 de maio de 2012

Depoimento: Bill, 10º semestre em 1º/2012 - História, UnB

Fui uma criança gorda, criado pela avó, pais divorciados, ambos desiludidos com a vida. Enquanto um encontrou conforto na bebida, o outro se entregou ao trabalho para se livrar da angústia. Ah sim, meus caros. Nem todos os pais divorciados pagam pensão e amam os filhos. Meus pais me odiavam. Eu era a lembrança viva dos seus sonhos perdidos. Havia algo errado com esse mundo.

E eu queria compreender esse mundo.

Por que alguns pais levavam seus filhos à escola? Por que nas novelas, até os mais pobres tinham no café da manhã, frutas, queijos, sucos e bolos? Perguntas aparentemente tolas assim, sufocavam-me, era uma tortura muito pior do que o bullyng que sofria por ser gordo num mundo de crianças magricelas de tanto jogar futebol.

Porque era uma tortura silenciosa, ruminante por ser solitária. Como resistir a uma tortura que não se sente? Que devora sua alma com pensamentos egoístas até deixar seu coração completamente  insensível a dor alheia? Fui uma criança perversa, fiz e desfiz coisas de que não me orgulho, mas que não me arrependo tampouco. Se fosse um contrito arrependido não teria chegado a História.

Não foi na escola que encontrei respostas. As escolas não falam dessas coisas terríveis que perturbam as mentes juvenis. Mas foi a escola que me deu a oportunidade de conhecer as pessoas que tinham alguns legos desse quebra-cabeça. Legos que não estavam com os professores. Desde então, tomo por axioma que as respostas não estão em instituições, mas nas pessoas. Descobri também que havia pessoas como eu, que tinham os mesmos anseios, as mesmas dúvidas, mas que faziam perguntas diferentes. Entendi que a resposta dependia da pergunta de uma maneira totalmente inédita para mim: Não existem respostas, somente perguntas. A grande questão não é fazer a pergunta correta, é perguntar. As respostas estão aí, é preciso tropeçar nelas.

E eu tropecei na História.

Contradições. Feridas. Dor. Inquietações. A História nos livros didáticos, contava uma única e incontestável verdade. Já então eu tinha o pressuposto de que não havia uma verdade, mas perguntas a serem feitas.

Ah, e eu sempre gostei de ler também.

terça-feira, 13 de março de 2012

Uma ótima discussão

Historiadores pra quê?http://www.blogger.com/img/blank.gif

À luz do debate que sacode o campo de história estadunidense sobre a funhttp://www.blogger.com/img/blank.gifção social dos historiadores, Keila Grinberg contrapõe, em sua coluna de março, as expectativas do graduando em história no Brasil e a realidade que ele encontra depois de formado. A reflexão sugere um novo direcionamento profissional nos cursos de pós-graduação na área.

Por: Keila Grinberg

e o texto que serviu de ponto de partida - detalhe o Anthony Grafton é, sem dúvida, um dos melhores historiadores da atualidade. Vale a pena conhecer seus livros!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"Cientistas boicotam a maior editora de periódicos do mundo "

Olá pessoal,

A Folha de São Paulo veiculou essa notícia e, como estudantes, também temos grande interesse no livre acesso aos periódicos. Durante a minha experiência na Iniciação Científica, mesmo com o acesso a base de dados da Capes através da UnB, tive que comprar alguns artigos. Nesse momento eu pensei nos estudantes que não têm cartão de crédito internacional, por exemplo, para ter acesso a publicações quando elas são indispensáveis ao tema pesquisado.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ANPUH diz: "O STF não sabe o que é história"

"O Ministro Cezar Peluso, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), promulgou, em 29 de novembro de 2011, a Resolução No 474 que "estabelece critérios para atribuição de relevância e de valor histórico aos processos e demais documentos do Supremo Tribunal Federal". O documento causa perplexidade aos historiadores e a todos aqueles que, minimamente, tem acompanhado o desenvolvimento da historiografia contemporânea, em especial por duas razões: por procurar estabelecer "por decreto" o que é ou não histórico e por apontar como subsídio para essa classificação critérios considerados ultrapassados há, pelo menos, um século. Por esse motivo, a Associação Nacional de História (ANPUH), entidade que congrega os profissionais de história atuantes no ensino, na pesquisa e nas entidades ligadas ao patrimônio histórico-cultural, não poderia deixar de trazer a público a sua inconformidade com a referida Resolução."

Fonte: http://www.anpuh.org

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Comentários acerca da matéria da Veja sobre a UnB

Caros alunos e leitores deste blog, dessa vez vou abrir nosso espaço para uma discussão um tanto desagradável. Diante da evidente vulgaridade da Revista Veja, melhor seria ignorá-la. Mas, neste caso, acredito que precisamos pensar um pouco sobre o conteúdo de uma de suas matérias sensacionalistas e superficiais. Refiro-me ao texto intitulado “Madraçal* no Planalto”, que saiu no número desta semana. Vou comentar alguns pontos da matéria, mais relacionados ao tema dos usos do passado:

1. Em primeiro lugar, o texto começa com referências laudatórias e nostálgicas com relação ao passado de lutas da UnB contra a ditadura. Isso é mera figura de retórica: a exaltação de um passado que não incomoda mais justamente por ser passado, em nome da desqualificação do presente. Isso é recorrente na tradição política. Pode ser resumido com aqueles versos de Aldir Blanc: “não se fazem mais moinhos como os de antigamente!” É um tipo de argumento que visa enaltecer uma figura para, por contraste, rebaixar outra. A mesma revista que, em outras matérias, vem dizendo que quem lutou contra a ditadura era “terrorista”, agora recorre à imagem da “luta democrática”. Aliás, essa própria figura de retórica é mentirosa: houve muita resistência na UnB contra a ditadura, mas a história da UnB não se confunde com a da resistência. Precisamos nos lembrar de que também houve muita colaboração. Isso em nome de uma visão política menos maniqueísta e manipulável pelo esvaziamento do passado promovido por interesses não muito claros.
2. Por outro lado, se juntarmos a citada matéria a outra que saiu recentemente sobre a maconha, veremos que parece existir uma coincidência de notícias difamatórias sobre a universidade. A difamação é baseada em estereótipos: estudantes maconheiros e/ou subversivos. A velha imagem da imoralidade estudantil, somada ao anticomunismo (e, veja!, a Guerra Fria acabou!) – agora também sobreposta à discussão sobre a questão racial. Estereótipos não compõem argumentos, são meras acusações, agressões baseadas na adjetivação. Esta é uma das marcas do discurso autoritário. Ele ignora as diferenças, é vulgar e maniqueísta. Portanto, se algo na matéria da revista Veja nos leva a pensar na ditadura, não é a alusão explícita usada no início do texto, mas a forma autoritária da exposição.
3. O texto traz muitas acusações de perseguição a professores. As acusações são muito graves. Mas, como não participo de nenhum grupo político ligado à reitoria e estou na universidade há pouco tempo e, portanto, não tenho informações sobre o assunto, deixo que os acusados respondam, se assim lhes interessar. O que nos interessa mais no texto é seu estilo e a recorrência de velhos lugares comuns que foram usados, outrora, para justificar a invasão e as violências cometidas contra a UnB (uma boa pesquisa seria ler os jornais e revistas que saíram à época da invasão da UnB, em 1968. Talvez,para citar uma daquelas canções estudantis/esquerdistas que fazem o coração dos paranóicos saltar, a conclusão seria: somos como nossos pais). Com base em algumas acusações o autor constrói generalizações abusivas. Com esse tipo de tática, qualquer coisa pode ser “provada”. Alguém pode escolher 3 ou 4 entrevistados e montar um texto provando, por exemplo, que as araras do zoológico estão sendo treinadas para ações de guerrilha urbana ou que os freqüentadores do Rotary Club usam drogas pesadas em seus chás beneficentes.
4. O elogio ao passado é, no mínimo, ambivalente, visto que só tem uma função específica: desqualificar a atualidade. Com esse gesto, a revista procura se apropriar de uma tradição e apresentar-se como sua paladina: a tradição democrática, anti-ditadura. Mas, ironias da história, o golpe de 1964 também foi feito em nome da democracia!


* Orientalismo?

quinta-feira, 30 de junho de 2011

SOBRE A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DE HISTORIADOR

Olá pessoal, no link abaixo está disponível uma entrevista do site do " Café História" com o senador Paulo Paim, autor projeto de lei que pretende regulamentar a profissão de historiador no Brasil.

Aproveitem o texto e comentem!

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/arquivo-conversa-cappuccino-8

terça-feira, 21 de junho de 2011

A função social da fofoca: Uma história mal contada

Muito se fala sobre a recente e imensa inovação temática do campo historiográfico. Por outro lado, quando observamos a situação atentamente notamos um dado curioso, complementar à dita inovação: a grande quantidade de temas pouco explorados. Um deles é a fofoca. Aparentemente fútil e mesquinha, a prática e o estilo da fofoca pode ser excelente indicativo sobre os modos de funcionamento da vida social e dos mecanismos de poder em um dado momento histórico.
Pensando meio aleatoriamente, consigo me lembrar de três livros que poderiam inspirar uma pesquisa desse tipo. O primeiro, o belo capítulo “O rumor também é um deus”, do livro A escrita de orfeu de Marcel Detienne. Detienne apresenta o Rumor como uma espécie de potência grega, representada por um ser grotesco de inúmeros olhos e línguas. O Rumor seria a força criadora das palavras que se proliferam pelo mundo, sem autoria definida. O disse-me-disse que toma conta de todas as vozes, sem origem definida. A figura esboçada por Detienne chega a ser encantadora: o Rumor tem o seu charme por ser uma fala desautorizada, sem amparo institucional, alheia ao poder.
O segundo livro já nos dá uma imagem com menos charme. Em A Sociedade de Corte, Norbert Elias apresenta o quadro de uma vida social regida pela luta pelo prestígio. A Corte seria exatamente o meio social em que o poder tinha como base não a riqueza econômica ou a força militar, mas o “bom nome”, as “boas relações” – algo semelhante à universidade. Por isso, a vida na Corte era um constante jogo onde se procurava aniquilar o prestígio dos concorrentes. Um dos meios eficazes para tal era a fofoca. Interessa notar aqui que a fofoca, diferentemente do Rumor, seria a encarnação do poder e não o que a ele se subtrai. Seus recursos retóricos tinham como base os preconceitos compartilhados, a moral comum. Ou seja: o moralismo e a hipocrisia como armas de luta do fofoqueiro – seu modo de conseguir respeito e ameaçar os outros com o desrespeito alheio. Ainda aqui, o fato de a fofoca não ter um autor em nada diminui seu efeito, por assim dizer, perverso, uma vez que aquele que acredita na fofoca também é fofoqueiro. Um efeito correlato, extrapolando um pouco o dito explicitamente no livro de Elias, pode ser chamado de policial. No sentido clássico do termo - o policiamento como governo, administração dos costumes, correção dos desvios: o alvo da fofoca sendo o comportamento tido como imoral, desviante, escandaloso. Sendo assim, a fofoca como discurso eminentemente conservador e mesmo reacionário. O fofoqueiro supõe-se, aqui, o porta-voz da moral, daí sua inerente hipocrisia. O fofoqueiro como julgador: daí seu olhar de ódio e ameaça.
Um quadro semelhante, mas ainda mais sombrio temos no romance Ninho de cobras de Ledo Ivo. Mais sombrio porque neste caso o fofoqueiro é o delator, o dedo-duro. Já não sendo, portanto, alguém que usa a moral comum para seus jogos de poder, mas o perseguidor, o investigador e o chantagista. Não é para menos: o romance é uma alegoria do autoritarismo em geral e da ditadura militar em particular, situações em que o dedo-duro adquire aura de herói patriota. Por assim dizer, a fofoca como serviço de utilidade pública. Em diferentes situações, a fofoca tem diferentes funções e sentidos. Daí o seu interesse histórico. Ainda que carregado de melancolia. Quando estudamos o tema, estamos diante do nosso lado mesquinho, acusador. A fofoca é convincente porque se baseia em evidências, naquilo que todos vêem e sabem, no que não é segredo para ninguém. Mas a isso, a fofoca sobrepõe suas próprias interpretações e pontos de vista. Que nada mais são do que o senso comum, os pressupostos e preconceitos disfarçados de defesa da ética. Ou seja, mesmo com melancolia, uma pesquisa sobre a fofoca deveria reconhecer que não há nada de mais ordinário (no sentido de comum) do que um fofoqueiro e as banalidades que ele diz, com sua postura, ora de delator, ora de policial, ora de juiz da moralidade pública.
As fontes para tal pesquisa deveriam ser variadas. O tema exigiria uma procura refinada, uma vez que a fofoca desliza socialmente, espalha-se, dissemina-se. E, claro, é fundamentalmente oral. Sua teoria poderia se basear em livros como os que indiquei e na observação da vida social à nossa volta.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Carreira de pesquisador em História por Carlos Fico

Olá pessoal, gostei muito desse post do Prof. Carlos Fico.
Diversos professores do nosso Departamento fizeram uma trajetória similar a que ele descreve.
Aproveitem a leitura e os conselhos!
Abs,

Sara Daiane



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O(a) jovem que deseja tornar-se um(a) pesquisador(a) em História deve preparar-se para enfrentar um longo percurso.

O primeiro passo, naturalmente, é ingressar em um bom curso de graduação (há diversos rankings que facilitam a escolha). O bacharelado em História é uma etapa difícil: a visão frequentemente tradicional que se tem da História no ensino médio tende a ser “desconstruída” na universidade, o que costuma gerar crises epistemológicas nos(nas) jovens candidatos(as) a historiador(a). Sempre digo a meus(minhas) alunos(as) que o principal não é cumprir as disciplinas, mas integrar-se em grupos de pesquisas, fazer iniciação científica, atuar como monitor. Para mim foi muito importante aproximar-me dos(as) professores(as) que admirava, pedir orientação insistentemente: é muito comum que os(as) professores(as) universitários(as) sejam pouco demandados(as) e, por isso, acabam sendo mal aproveitados(as).

No final da graduação, é importante que a monografia de bacharelado seja bem escolhida. O primeiro exercício de pesquisa não pode ser aborrecido.

Há uma espécie de “taylorização” da formação do pesquisador: emenda-se o bacharelado no mestrado, feito rapidamente em dois anos, e logo se inicia o doutorado, às vezes até antes da defesa da dissertação de mestrado. Isso é ruim, já que nossa profissão exige amadurecimento, erudição, leituras, algo que demanda tempo. No passado, uma dissertação de mestrado ou uma tese de doutorado podia ser feita ao longo de 5, 6 anos, ou muito mais. Mas não adianta pensar em termos ideais. Hoje há muita competição. Por exemplo: quando ingressei na carreira do magistério superior, em 1985, eu nem tinha o mestrado, era apenas um especialista (pós-graduação lato sensu). Comecei como “Professor Auxiliar”. Hoje em dia, nenhuma universidade contrata professores auxiliares porque, para atuar na pós-graduação, é preciso ser doutor e praticamente todos os departamentos têm cursos de pós-graduação.

Portanto, é preciso fazer o mestrado rapidamente, nos dois anos regulamentares, de preferência com uma bolsa do CNPq ou da CAPES, o que depende da classificação no processo de seleção. É essencial, portanto, fazer uma boa seleção. Isso resulta, em geral, de duas coisas: um bom projeto de pesquisa e, eventualmente, ter atuado na graduação do departamento em alguma iniciação científica. Um bom projeto de pesquisa é aquele que define com precisão um problema e indica a existência de fontes documentais interessantes. Um bom roteiro para a elaboração de projetos de pesquisa pode ser visto nos editais de seleção do meu programa de pós-graduação, o PPGHIS da UFRJ.

O mestrado é uma correria e, nesse sentido, até mais difícil do que o doutorado. O(a) aluno(a) vem da graduação, muitas vezes sem experiência de pesquisa e, em dois anos, tem de fazer uma dissertação. Como no primeiro ano é preciso cumprir, em geral, quatro disciplinas, a dissertação só é redigida mesmo no segundo ano.

No doutorado as coisas são mais tranquilas, em função da experiência adquirida e do prazo maior (quatro anos). O único problema é que você terá de fazer uma tese de doutorado! É um trabalho que pressupõe originalidade. O mais importante, entretanto, é ter em mente que a tese costuma “marcar” o autor: quando você fizer um concurso para tornar-se professor, por exemplo, é certo que sua tese será considerada.

Depois da tese, o passo final é a busca de um emprego. Muitos recém-doutores só vão se inserir no mercado nesse momento, tendo vivido de bolsas até então. É a realidade hoje em dia. Como disse, no passado, muitos professores se doutoravam depois de anos de atuação no magistério. Seja como for, há algumas alternativas. Uma delas é trabalhar como "Professor Recém-Doutor" em algum departamento ou programa de pós-graduação, algo que, em geral, depende de uma inserção prévia em grupos de pesquisa. Outra hipótese é se tornar "Professor Substituto" (dando aulas na graduação no lugar de um professor aposentado ou falecido antes do concurso para professor efetivo). O processo de seleção para professor substituto é mais simples do que o tradicional concurso de provas e títulos para professor efetivo.

O concurso para se tornar professor do magistério superior federal (efetivo) é bastante pesado. Há provas de aula, de arguição do currículo e escrita. Usualmente, são muitos os candidatos. Como já disse, em geral os concursos são para “Professor Adjunto”, isto é, aquele que já é doutor. Dificilmente se contrata um "Professor Auxiliar" (especialista) ou "Assistente" (mestre). Depois de oito anos, o Adjunto pode progredir para "Professor Associado". Para chegar ao último patamar da carreira, como “Professor Titular”, é preciso fazer outro concurso, que pode exigir uma tese ou uma conferência, dependendo da universidade.

Se tudo der certo, são quatro anos na graduação, dois no mestrado e quatro no doutorado, isto é, dez anos apenas para começar a carreira. Boa sorte! E paciência...

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Fonte: http://www.brasilrecente.com/2011/06/carreira-de-pesquisador-em-historia.html

quarta-feira, 1 de junho de 2011

III SEMHIS-UnB

III Seminário dos Estudantes de História

História do Tempo Presente - Autoritarismo, Democracia e Socialismo

2-3 Junho de 20111

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Americanos elegíacos sentimentos (aproximação a um poema de Gregory Corso* em memória de Kerouac

Vou por aqui, agora na ordem certa. E em homenagem ao Tempo dos Assassinos e à Morte da República continuada por Obama. Que agora tem que escolher entre: a. ser mais um dos mentirosos estilo docs do pentágono, watergate, bush decretando 10 anos o fim da guerra (invasão) ao Iraque, um autor de uma Teoria da Conspiração Imperial sobre um terrorista jogado no mar que, ao contrário das expectativas, causou com sua morte um aprofundamento do Estado de Terror; ou b. ser um criminoso de guerra, contrariar todas as convenções e tratados, mesmo que não assinados por seu país, ao autorizar e assistir ao vivo a invasão de uma residência de um país estrangeiro nem sequer em guerra pelo exército americano assassinando civis e depois jogando o corpo do morto no mar não importa quão criminoso. e pensar que os versos e a poética libertária de Walt Whitman foram manchados e reciclados ao contrário virando lixo na posse desse tirano boçal por uma poeta de quinta categoria que fez um pastiche vagabundo

Gregory Corso
Elegiac feelings american

Americanos elegíacos sentimentos
Tomando muita liberdade face ao literal pra dar conta dos jogos de palavras e sintaxe
Notas: beat: apanhar da vida. Bitter: amargo.
Foundling fathers.
How: howl.
À querida memória de Jack Kerouac

1.
Como são inseparáveis você e a América que você viu apesar de nunca estar ali pra ser vista; você e América, como a árvore e o chão, são um e o mesmo; mesmo que como uma palmeira no Oregon... morta assim que floresce, como um urso polar em acrobacias no Miami –
Como assim aquilo que você foi ou esperava ser, e a América não, a América que você viu e ainda assim não podia ver
Tal como e ainda assim incomum no chão de onde você brotou; você de pé sobre a América como uma árvore sem raiz e sem rumo; pra o esquilo não havia divórcio entre o pulo do chão e a escalada na árvore... até que ele viu nenhuma semente cair e soube que não havia casamento entre os dois; como é infrutífera, como é inútil, a triste desnaturada natureza; não espanta que o pôr-do-sol tenha deixado de ser deleite... já que de que valem terra e sol quando a árvore entre eles é inválida... a inseparável trindade, uma vez sem serventia, torna-se uma fria infrutífera insignificante mortementira triplamente marcada em sua horrível amputação... Oh açougueiro a costeleta não é o porco – O Americano alienígena na América é amargo desmembramento; e mesmo sua elegia, querido Jack, devia ter uma árvore retalhada, prensada até a celulose, que a conterá – não espanta que boas novas não possam ser escritas sobre essas más novas –
Como é alienígena a terra natal, como a árvore morre quando o chão é estrangeiro, frio, não livre – O vento não sabe soprar a semente da Sequóia em que ninguém nunca esteve ; nenhuma palmeira é soprada ao Oregon, que sábio o vento – Sábio tanto quanto os mensageiros do profeta... sabendo da fertilidade do tal lugar em que a dita profecia foi anunciada e poderia ser respondida – o semeador de trigo não semeia nos campos de cana; já que o semeador de voz também semeia o ouvido. E fosse o pequeno Liechtenstein ao invés de América, a designação... certamente então seríamos a língua de Liechtenstein –
Não foi tanto a gente descobrindo a América quanto a América descobrindo sua voz em nós; muitos discursavam pra América como se a América lhes pertencesse por usucapião, crédito, direito e lei juridicamente adquirida por meio de golpes materialísticos de prosperidade e herança; como o cidadão de uma sociedade acredita ser o dono da sociedade, e o que ele faz de si mesmo ele faz da América e assim quando ele fala de si ele fala da América e dessa forma outro ele é eleito pra representar o que ele representa... um ego infernal de uma América
Assim quantos patriotas discursam amorosamente sobre si mesmos quando discursam sobre a América, e não apreciá-los é não apreciar a América e vice-versa
A língua da verdade é a verdadeira língua da América, e não poderia ser encontrada no Daily Heralds já que a voz dali é uma voz controlada, amaldiçoadamente opinativa, e dirigida ao crédulo
Não espanta que nós nos tenhamos descoberto desenraizados, porque nós nos tornamos as próprias raízes, - a mentira jamais enraíza e dali cresce sob a verdade do sol e alcança o fruto da verdade
Taí Jack, eu não posso fazer o seu réquiem sem fazer o réquiem da América, e este é um réquiem que não me cabe antecipar, porque enquanto eu for vivo não existirão réquiens pra mim
Porque se a árvore morre a árvore nasce novamente, só depois que a árvore morrer pra sempre e nunca outra árvore nova nascer... então o solo morrerá também
Seus os olhos que viram, o coração que sentiu, a voz que cantou e lamentou; e enquanto a América viver, mesmo que seu corpo tenha morrido meu velho Kerouac, você viverá... porque de fato o nosso é o tempo da profecia sem a morte como conseqüência... porque de fato depois do nosso veio o tempo dos assassinos, e quem duvidará de suas últimas palavras “depois de mim... o Dilúvio”
Ah, mas se fosse questão de estações eu não duvidaria do retorno da árvore, se não pra que o solo que nos sustenta sendo ele incapaz de sustentar – é, a árvore vai cair quando for esta a estação, pois assim é o hábito da natureza, é assim que o solo, a queda, a lenta mas certa decomposição, até que a própria árvore se torna o próprio solo que a sustentou; depois que caia o solo... ah, e depois o quê? Isso não pode ser respondido na natureza, pois não haverá outro solo onde cair e repousar, nem queda, nem ascensão, nada crescerá, sem direção, e no que, por que, se a composição chegar à sua própria decomposição?
Nós viemos pra anunciar o espírito humano em nome da verdade e da beleza; agora esse mesmo espírito clama no lugar da natureza pelo horrível desequilíbrio de todas as coisas natural... esquiva natureza capturada! Como um pássaro na mão, aproveitado e remanufaturado nos moldes involutivos da técnica e do experimento
Pois é apesar de a árvore ter enraizado no solo o solo é revirado e nesse vômito forçado o terrível miasma das árvores fossilizadas da morte os restos milenares e a graxa de dinossauros mortos a eras são expelidos e espalhados trazidos novamente à superfície e avançam no céu e nós o respiramos em acúmulos de poluição
Que esperança pra América incorporada em ti, Amigo, quando o mesmo álcool que desencarnou o seu irmão pele-vermelha da sua América, desencarnou você – uma armação pra agarrar a terra deles, nós sabemos – ainda assim que armação pra agarrar a inagarrável terra do espírito de alguém? A Tua América visionária era impossível de ser visualizada – porque quando as sombras das janelas do espírito caem, aquilo que foi visto ainda permanece... os olhos do espírito ainda vêem
É, a América incorporada em ti, tão definitivamente enraizada assim, é a incorporação viva de toda a humanidade, jovem e livre
E sempre que a árvore redentora floresça, mesmo que não plenamente, mesmo que não com certeza, lá estarão os entrevados, velhos e tristes, que gostarão de fazê-la cair: eles cortam, retalham, atiram pra longe... que nada jovem e livre se sustente de qualquer maneira
Na verdade essas árvores eram como a juventude é... fossem tais árvores feitas pra cair, e não mais nascer pra crescer novamente, então o chão deveria cair, e o dilúvio chegar e inundar tudo, purificar tudo e todos pra sempre, como um vento vindo de lugar nenhum pra lugar algum

2.
“Como Clark Gable segura firme tuas mãos...” (conversa no México em 1956) – Mãos tão fortes e ensolaradas de México, ocupadas com a América, mãos que eu sabia iriam fazê-lo, iriam tomar conta e acariciar
Você estava sempre falando da América, e América sempre foi história pra mim, General Wolfe deitado no chão morrendo em sua farda vermelha brilhante amparado por alguém de farda azul pendurado na parede da sala de aula ao lado do pai da nação cujo peito estava sombreado na pintura... sim, a nossa foi uma História Americana, história com futuro, é claro;
Como um Whitman nós estávamos buscando, esperando por uma América, aquela América sempre uma América ainda em vir-a-ser, nunca uma América para ser cantada ou uma América para ouvir nosso canto, mas sempre uma América pela qual clamar cheio de esperança
Tudo o que nós tivemos foi a América passada, e nós mesmos, a América agora, e ah como nós guardávamos aquele passado! E Ah a grande mentira daquela sala de aula! A Guerra da Revolução... tudo o que nós tínhamos era Washington, Revere, Henry, Hamilton, Jefferson e Franklin... nunca Nat Bacon, Sam Adams, Paine... e a liberdade? Não foi pra conquistar a liberdade aquela guerra, liberdade eles tinham, eles eram os homens mais livres do seu tempo; foi para não perder aquela liberdade que eles pegaram em armas – ainda assim, e ainda assim, a estação em que nós florescemos para a cena era escassamente livre; há liberdade hoje? Não pra escutar o que o índio, o negro, o jovem têm a dizer
E no começo quando liberdade era tudo o que alguém podia escutar; não foi bem assim pras pobres bruxas de Salem; e aquele imenso entusiasta de liberdade, Franklin, pagou bondosamente100 dólares por cada escalpo de criança selvagem nascida livre; Pitt Jr conseguiu boa parte da cidade do amor fraterno por meio do ultraje ofensivo ao abandonar o coração confiante de seu irmão pele-vermelha com tortuosa trairagem; e como ignorava a liberdade o sábio Jefferson proprietário de negros que perderam a liberdade; pra os declaradores da Independência declará-la apenas para uma parte do todo era declarar a guerra civil
Justiça é tudo o que um homem da liberdade precisa esperar por; e justiça foi uma coisa extremamente importante pelos pais afundada; um diadema pra vida Americana sobre o qual podiam se estabelecer os gêmeos Deus e propriedade privada;
Como o pobre Americano nativo sofreu pela estabelecimento forçado daqueles dois pilares da liberdade!
Da Justiça brota um Deus inconstante; de Deus brota uma justiça ditada
“Os caminhos de Deus levam à liberdade” disse São Paulo... ainda assim é o homem que precisa da liberdade, e não Deus, pra ser capaz de seguir os caminhos de Deus
O justo direito do indivíduo à propriedade de seu pedaço de chão não se justifica para aqueles a quem a terra pertencia coletivamente em primeiro lugar;
Aquele que vende a terra da humanidade a um único homem vende a Ponte do Brooklyn,
A segunda maior causa de mortalidade humana... é a aquisição de propriedade
Nenhuma vida Americana vale um hectare da América... se Proibido Entrar ou cães de guarda não te convencerem uma arma de fogo o fará
E daí, doce buscador, que América buscou você então? Saiba que hoje existem milhões de americanos buscando a América... saiba que mesmo com toda essa química que expande os olhos – só mais do que não está lá eles vêem
Alguns encontram a América nas canções das pedras aglomeradas, outros na névoa da revolução
Todos a encontram em seus corações... e Ah como ela aperta o coração
Não é tanto suas existências aprisionadas numa velha e insuportável América... mais a América aprisionada neles – que dilacera e obscurece o espírito
Uma nunca vista América, sonhada, incerta em tremores, vagabunda o coração, envia más vibrações adiante cósmica e ao contrário
Você poderia ver o desprezo em seus tristes olhos jovens, e enquanto isso as prisões estão virando barbearias, e o exército sempre foi
Contudo inábeis eles são pra aparar o furacão de seus olhos
Mira até Moisés, nenhum profeta jamais alcançou o prometido das terras... ah mas teus olhos estão mortos... e nem a América para além de sua derradeira sonhada colina na real paira

3.
Como se parecem nossos corações e tempo e morte, como nossa América lá fora e dentro de nossos corações insaciável e ainda assim transbordando aleluias de poesia e esperança
Como a gente sabia sentir cada pôr-do-sol, e Oh e Ah uivo pra cada tristeza dourada e desamparo de costa a costa em nossa busca por qualquer alegria inabalável nunca lá e agorassempre cinza
Sim a América a América imaculada e jamais revolucionada para a liberdade e sempre em nós livre, a América em nós - desfronteirada e a-historicizada, nós a América, nós os pais daquela América, a América que você Johnnyappleseedou, a América que eu anunciei, uma América nunca lá, uma América prestes a ser
O profeta afeta o estado e o estado afeta o profeta – o que aconteceu com você, Oh amigo, aconteceu com a América – a mancha... as manchas
E ah quando se pergunta sobre você “o que aconteceu com ele?” Eu digo “Aconteceu com ele o que aconteceu na América – os dois eram inseparáveis” como o vento para o céu é a voz para a palavra...
E agora aquela voz se foi, e aquela palavra é foice, e a América desfaz-se, o planeta fossiliza
Um homem pode ter tudo o que quer dentro de casa e ainda assim não ter nenhuma onda pra curtir do lado de fora da porta – pra um homem sensível, um homem poeta, tal fora só serve pra fazer de sua casa um lugar onde alguém mergulha na ressaca fiz isso por causa do hang oneself
E quanto a nós, querido amigo, nós sempre trouxemos a América pra dentro de casa – e jamais como roupa suja, mesmo com todas as manchas
E pela porta da frente, carinhosamente aninhada em nossos corações; onde nós sentávamos e desenvolvíamos nossos sonhos de beleza na esperança de que ela tornaria belo o nosso ninho
E o que aconteceu com o nosso sonho (beauteous: beat) de América embelezada, Jack?
Pareceu bonito a você, soou assim tão bem, em seu frio elétrico blues, aquela América que vomitou e empesteou sua casa, seu cérebro bom, aquela irreal falsa América, aquela caricatura de América, que ligou a América num muro... um galão de uísque desesperado te levou um dia a olhar aquela América em seu olho incorpóreo
E ela não te viu, ela nunca viu você, porque o que você viu não estava lá, o que você viu foi besteirol na tv, e toda a América estava nessa de bobeira, aquela América que emburrou você, emburrou a América, tudo aquilo emburrado, (brought you in), tudo aquilo em lugar algum sem conteúdo, não surpreende que você tenha sido solitário, morreu vazio e triste e sozinho, você a voz e a face na real... capturado nas ondas da falsa voz e da face falsa – que se tornou real e você falsificado,
Oh a terrível fragilidade das coisas
“O que aconteceu com ele?” “O que aconteceu contigo?” A morte foi o acontecimento; uma vida desenganada aconteceu; um Deus adoecido aconteceu; um sonho em pesadelo; uma juventude militarizada; militares massacrados; o pai quer devorar o filho, o filho usado como lenha pra acender a pira, (the son feeds his Stone, but the father no get stoned), mas o pai nada de pirar
E você Jack, pobre Jack, viu seu pai morrer, sua América morrer, seu Deus morrer, seu corpo morrer, morrer morrer morrer; e hoje os pais assistem seus filhos a morrer, e seus filhos assistem bebês a morrer, por quê? Por quê? Como nós dois perguntamos POR QUÊ?
Ah a horrível triste tristeza disso tudo
Você nada além de uma década Kerouac, mas quanta vida naqueles dez Kerouac!
Nada aconteceu a você que não tenha acontecido; nada ficou incompleto; você circulou por todo o ciclo, e o que está acontecendo com a América não mais acontece com você, porque o que acontece com a consciência de uma terra também acontece com a voz daquela consciência e a voz está morta ainda que a terra perdure pra esquecer o que escutou e da palavra não resta um osso
E tanto a palavra quanto o solo de carne e terra sofrem a mesma doença e a mesma morte... e morre a voz antes da carne, e o vento sopra um silêncio mortal sobre a terra moribunda, e a terra vai olvidar sua ossada, e nada de vento pra soar o gemido, só silêncio, silêncio, e nem mesmo o ouvido de Deus pra escutar
É, o que aconteceu com você, querido amigo, compassivo amigo, é o que está mudando todos e tudo no planeta o clamorosamente triste desesperado planeta agora com uma voz a menos... expansiva como o vento... partida, e agora quem vai soprar pra longe o terrível miasma da doença, doentia e moribunda em carne e terra a alma da América
Quando você pôs o pé na estrada à procura da América você encontrou somente o que você mesmo viu nela e um homem à procura de ouro encontra a única América que há pra encontrar; e este investimento e o investimento de um poeta... dá no mesmo quando vem a quebradeira, e estamos quebrando, no entanto as janelas são apertadas, não dá pra pular; do inferno ninguém jamais caiu

4.
No inferno os réus anjos também cantam (in Hell angels sing)
E cantaram para manter renovados
Os que seguiram quem carregou Cristo menino nos ombros
Abandonaram o inferno e contemplaram um mundo novo
Contudo com armas e bíblias eles vieram
E cedo sua morada nova envelheceu
E mais uma vez o inferno aportou.

O Arcanjo Rafael eu era pra você
E eu pus a cruz do Senhor dos Anjos
Em você... ali
No limite de um mundo novo a explorar
E você foi lampejo sobre um velho e escuro dia
Um beat criança-Cristo... com a gentil circularidade das coisas sobre os ombros
Insistindo que a alma é circular e não quadrada
E então... depois de ti
Seguiram os teus passos
Os filhos das flores.

sexta-feira, 11 de março de 2011