quarta-feira, 4 de agosto de 2010

História e Música IV: GERAÇÃO COCA-COLA


Começaremos a análise com a música Geração Coca-Cola do primeiro álbum da banda, Legião Urbana, lançado em 1984. Essa música possui como tema a ironização da representação que a sociedade da época tinha da juventude. Os compositores da música, Dado Villa-Lobos e Renato Russo percebem essa imagem construída sobre a geração a qual pertencem e não se identificam com ela. O discurso que proferem se dirige para essa mesma sociedade. O fato de usarem a terceira pessoa do plural também denota a coletividade do discurso, ou seja, estão falando por todos os jovens que também não se identificam com a imagem dominante.

Essa imagem, contra a qual a música se faz, considera um jovem inserido numa sociedade contemporânea; como se percebe pelos termos comercial, industrial, cinema e enlatados; um ser manipulado, passivo, semelhante à visão que se tinha do teenager nos EUA, submetido à cultura exportada pelo imperialismo norte-americano, aceitando-a sem nenhuma crítica (Quando nascemos fomos programados/A receber o que vocês/Nos empurraram com os enlatados/Dos U.S.A., de nove as seis ), por isso pertencia a chamada “Geração Coca-Cola”. Entretanto, pode-se perceber que havia também em torno da juventude uma expectativa (Somos o futuro da nação), embora já num ambiente pós-utópico, no qual as grandes ideologias e sonhos revolucionários estão desacreditados (Somos os filhos da revolução/Somos burgueses sem religião).

O jovem que a música quer construir, contrário à representação que a sociedade tem, possui uma visão negativa desta (Desde pequenos nós comemos lixo [...] Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês). Ele é capaz de entender os mecanismos pelos quais a sociedade funciona (Depois de 20 anos na escola/Não é difícil aprender/Todas as manhas do seu jogo sujo) e com esses mesmos mecanismos vão subverter a ordem (suas crianças derrubando reis/Fazer comédia no cinema com as suas leis). Os parâmetros musicais da canção condizem com o caráter de protesto da letra. O próprio gênero musical, o rock, contribui para isso, já que conota contestação e certa agressividade com o uso de guitarras com distorção e uma interpretação vocal contundente, utilizando-se de “berros”. A música passa valores rituais, pois cria uma solidariedade entre os jovens inconformados com a representação dominante, e valores políticos, já que a música expressa uma identidade contestadora.

Para Renato Russo, a sua geração era injustamente cobrada de uma postura crítica, de um conhecimento sobre seu próprio país, porém, ao mesmo tempo não possuía meios para atender tal demanda, já que as informações as quais tinha acesso provinham dos EUA, principalmente. Em resposta, esses jovens, por meio de um produto cultural como a música, criaram uma nova representação, em torno da qual se formou uma nova identidade, e veicularam seu protesto.

Amanda Camylla e Thiago Dornelles são alunos do quinto semestre de História na UnB

GERAÇÃO COCA-COLA

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos USA, de nove as seis.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola (4x)


Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola (4x)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010



Historiando


Que verbo se pode extrair

De textos tão tolos

Em busca de uma verdade inexistente!?

Tolos talvez...

Tolice resistente, mas bela

Tolice de todos

Tolos! Os que criticam

Com a paixão de um tolo

Que tecem nuances

De um mundo caduco

Ao vê-lo sem consolo

A murmurar mágoas no escuro

O mundo como ele é,

É belo em sua História,

Em suas guerras, seus vieses,

Seu prazer, sua memória...

Imutáveis ao ser móveis...

Temporais em sua eternidade...

Até o Apocalipse

Que virá sem avisar

Ou passará batido

Desapercebido

Ou talvez já tenha acontecido.

A História nos conta do mundo,

De um mundo em devir

Que não deverá ser

Em todo lugar dele

Se escreve sobre o que passou

Em tudo que se escreve dele

Se fala do que passou

Porque o agora

Já passou

E o que será

Agora é presente.

Wellington Camargo,

aluno do quinto semestre de História na UnB

Brasília, 2010

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O elogio da traição

Essa música do Chico Buarque é parte da peça "Calabar: O elogio da traição". Escrita em 1973, alvo da censura da ditadura militar. A história é baseada na vida de Domingos Fernandes Calabar, um senhor de engenho que se aliou aos holandeses nas sangrentas batalhas (sobretudo na África) entre estes e os portugueses pelo domínio da rota colonial escravista. Calabar acabou entrando para a história como um traidor. O interessante na peça de Chico Buarque e Ruy Guerra é a sobreposição de diferentes camadas históricas. Ao relato colonial se superpõe a situação ditatorial da década de 1970. Ou seja, pelo menos duas histórias diferentes são contadas, simultaneamente, no texto teatral. Unindo, metaforicamente, Portugal do século XVII ao Brasil do século XX. A peça fala de autoritarismo, repressão e hipocrisia moral. Daí o "elogio da traição". É importante lembrar que o discurso da ditadura militar brasileira era extremamente patriótico, segundo o famoso dilema imposto do "Brasil, ame-o ou deixe-o". De acordo com este discurso, todos os que combatiam a ditadura eram considerados traidores da nação. A peça de Chico e Ruy Guerra inverte o sentido, sugerindo que a ética está do lado dos "traidores". As referências à ditadura no Brasil nem são tão subliminares assim, são dadas desde o início da música, na referência ao "primeiro abril" e à "mãe gentil", por exemplo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Seminário dos Estduantes de História

Local: Auditório do Instituto de Ciências Humanas – Campus Universitário Darcy Ribeiro, Instituto Central de Ciências, BSS-687

Data: sexta-feira 13 de agosto de 2010, a partir das 09 horas

Contato: semhis@unb.br

Inscrições até 12h do dia 13/08/2010 pela internet na página do evento.
Mais informações sobre o seminário:

http://scientia.cliomatica.com/index.php/semhis/semhis/index

segunda-feira, 19 de julho de 2010

História e Música III: O ROCK NO BRASIL

No Brasil o rock chegou na segunda metade dos anos de 1950.A primeira etapa o rock nacional era versões dos sucessos estrangeiros gravados por artistas como Celly Campelo. Na década de 60 surgiu a Jovem Guarda, com temáticas ligadas à classe média urbanas, tendo como oposição as correntes da MPB, um embate que se desenrolou no contexto da ditadura militar.

Com a Tropicália, de 1968, o rock passou por várias inovações e tomou uma forma mais brasileira, com a banda Os Mutantes por exemplo. Nos anos 70 viu-se a ascensão do rock progressivo de outros músicos, como Raul Seixas, que não seguiam essa linha. Também se desenvolveu o Punk que abriu vários caminhos para a efetivação do rock como produto nacional.

Os anos 80, no período da reabertura política e posterior governo de Sarney, o rock nacional teve o seu grande momento e as gravadoras investiram pesado na sua divulgação. O “rock de Brasília”, representado por Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, desenvolveu-se na classe média e teve influências do Punk e Pós-Punk, principalmente.

Essa representação ocidental do jovem (explicitada nos post anteriores), apropriada de acordo com cada região, passou por revisões, atualizações e rupturas no correr do tempo, já que cada época teve sua concepção sobre essa etapa da vida. Assim, nos próximos post passaremos à analise das músicas do grupo Legião Urbana, buscando identificar quais as representações sobre o jovem elas veiculam.

Essa banda iniciou-se na década de 1980 em Brasília, e era composta por filhos de funcionários públicos, diplomatas e professores universitários. Logo, os discursos que constroem partem de um lugar social específico: a classe média de Brasília, possuidora de certa facilidade de acesso à informação estrangeira e algum poder aquisitivo. Algumas outras peculiaridades da cidade concorrem para a conformação do rock brasiliense: a disposição urbanística da cidade em superquadras propiciou a formação de “galeras” e turmas e delas surgiu a banda Legião e inúmeras outras. É a partir desse cenário que as músicas foram produzidas e circularam inicialmente. Após o sucesso nacional esses discursos alcançaram outros circuitos sócio-culturais.

Amanda Camylla e Thiago Dornelles são alunos do quinto semestre de História na UnB

sábado, 17 de julho de 2010

Uma agressão à história

O Congresso Brasileiro está discutindo um novo Código do Processo Civil (Projeto de Lei nº 166), que foi apresentado ao Senado em 8/6/2010. Em total desrespeito ao direito de preservação da história e às regras arquivísticas mais elementares, o artigo 967 desse projeto vem reforçar a moda burocrática de limpar o passado. O texto restaura, na íntegra, o antigo artigo 1.215 do atual Código do Processo Civil, promulgado em 1973, que autorizava a eliminação completa dos autos findos e arquivados há mais de cinco anos, "por incineração, destruição mecânica ou por outro meio adequado". Em 1975, depois de ampla mobilização da comunidade nacional e internacional de historiadores e arquivistas, a vigência desse artigo foi suspensa pela Lei 6.246. Aprovada a atual proposta, estão novamente em risco milhares de processos cíveis: um prejuízo incalculável para a história do país, que já arca com perdas graves na área da Justiça do Trabalho, uma vez que a Lei 7.627, de 1987 (com o mesmo texto do artigo 967), tem autorizado a destruição de milhares de processos trabalhistas arquivados há mais de cinco anos. Além de grave agressão à História, a proposta também fere direitos constitucionais de acesso à informação e de produção de prova jurídica. Eis o texto do projeto de lei que está no Senado:

Art. 967. Os autos poderão ser eliminados por incineração, destruição mecânica ou por outro meio adequado, findo o prazo de cinco anos, contado da data do arquivamento, publicando-se previamente no órgão oficial e em jornal local, onde houver, aviso aos interessados, com o prazo de um mês.

§ 1º As partes e os interessados podem requerer, às suas expensas, o desentranhamento dos documentos que juntaram aos autos ou cópia total ou parcial do feito.

§ 2º Se, a juízo da autoridade competente, houver nos autos documentos de valor histórico, serão estes recolhidos ao arquivo público.



O link para acompanhar a tramitação do PLS nº 166 é o seguinte: http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=97249.

Um ataque à cidadania que exige defesa firme por parte de todos que lutam pela defesa da História e da Memória.



Fernando Teixeira da Silva (Arquivo Edgard Leuenroth - IFCH - UNICAMP)

Silvia Hunold Lara (CECULT - IFCH - UNICAMP)

Magda Barros Biavaschi (Fórum Nacional Permanente em Defesa da Memória da Justiça do Trabalho

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Inspiração

O vídeo faz parte do projeto “Coisas que eu queria saber aos 21 anos”, uma parceria da Livraria Cultura com O Estadão. Na entrevista o biólogo Fernando Reinach conta o que motivou sua escolha profissional.