quinta-feira, 14 de abril de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Solidariedade X Objetividade
Em seu primeiro ensaio intitulado “Solidariedade ou Objetividade?”, do livro “Objetivismo, relativismo e verdade: escritos filosóficos 1”, Richard Rorty tem como objetivo a defesa da fundamentação da objetividade (entendida como intersubjetividade) através da solidariedade, o que nos seus termos significa também uma desconfortante opção ao etnocentrismo, e um abandono da crença da neutralidade como única via de transcender à aculturação (ou seja, um abandono também do projeto iluminista de fundar a solidariedade a partir da objetividade). O autor entende solidariedade e objetividade como dois modos fundamentais pelos quais os seres humanos dão sentido as suas vidas num contexto mais amplo: a primeira como a narração de sua contribuição à comunidade (histórica/atual ou imaginária); a segunda, diferentemente do desejo de solidariedade, pelo afastamento da comunidade e uma busca por uma relação imediata com uma realidade não humana (não cultural, ou não particular), uma relação com a “natureza intrínseca”, o desejo de objetividade.
A tradição da cultura ocidental constituí o exemplo mais gritante de um desejo de objetividade através do abandono da solidariedade, da comunidade. Fundada na noção de busca pela verdade, verdade que persuade por sua própria causa, e pela necessidade de um afastamento para com a comunidade afim da transcendência de nossas próprias luzes, para assim alcançar um estado de neutralidade e imparcialidade do qual entramos em contato imediato com uma natureza primeira, intrínseca da realidade; essa tradição perpassa desde as distinções platônicas entre conhecimento e opinião, aparência e realidade, à matematização da natureza que se segue com Descartes, ao pensamento social liberal do Iluminismo, a enfim os realistas do século XX. Aqui a imagem do intelectual é aquela do homem reflexivo que está em contato com a natureza das coisas, não por intermédio das opiniões de sua comunidade, mas de maneira mais direta.
Rorty chama aqueles que desejam fundar a solidariedade na objetividade de “realistas”, caracterizando-os como tomando a verdade como correspondência à realidade. Assim sendo necessitam de uma metafisica da qual por meio de uma relação de crenças e objetos, é possível estabelecer uma distinção entre quais crenças são verdadeiras (onde há correspondência) e quais são falsas. Necessitam também de uma epistemologia fundada numa justificação não apenas social, mas antes, natural, da natureza do homem e do mundo.
Do outro lado da moeda, aqueles que reduzem a objetividade à solidariedade são chamados pelo autor de “pragmáticos”. Esses entendem a verdade e o conhecimento, não necessariamente como algo correspondente a uma misteriosa natureza intrínseca, mas antes como o que é bom para acreditarmos, a melhor explicação o possível. Sendo assim, a cisão entre verdade e justificação, bem como a objetividade, não se fundam num ponto de vista absoluto, a-histórico, transcultural e natural, atingido pelo escape das limitações de uma dada comunidade; mas antes no maior grau de concordância intersubjetiva possível de se obter. Uma verdade e um conhecimento seriam assim, um elogio a uma crença por mais bem justificada (e aceitada), ou que não necessita de justificação adicional no momento.
Isso não implica na ideia de que toda e qualquer crença é tão boa quanto qualquer outra, nem de que a verdade possui tantos significados quanto procedimentos de justificação. A posição pragmatista não possuí uma base metafísica, nem uma base epistemológica (relativista), mas sim uma base ética baseada na ideia do dialogo. Sendo assim não possui uma teoria relativista, ou uma teoria da verdade. Afirma antes a verdade enquanto um termo para aprovação (significando isso nas mais diversas culturas). Em essência, “a distinção entre culturas diversas não difere em espécie da distinção entre diferentes teorias assumidas pelos membros de uma cultura em particular... O problema em todos esses casos é justamente a dificuldade de explicar por que outras pessoas discordam de nós, a dificuldade de reformular nossas crenças de tal modo a ajustar o fato dessa discordância com outras crenças que abraçamos”(pág.43, 44).
O pragmatismo, assim, não é uma teoria positiva que afirma a verdade enquanto uma coisa referida/relativa a uma outra, mas sim uma posição negativa (e moral), do qual devemos abandonar a tradicional distinção entre conhecimento e opinião, entre verdade e justificação. Para o pragmatista “não há nada a ser dito nem sobre a verdade nem sobre a racionalidade, para além das descrições dos procedimentos familiares de justificação que uma dada sociedade – a nossa – emprega em uma ou outra área de justificação” (pág. 40). “Uma investigação sobre a natureza do conhecimento só pode ser, segundo seu ponto de vista, uma avaliação histórico-social de como pessoas variadas tentaram alcançar concordância sobre aquilo em que acreditam” (pág.41), mais do que uma busca por “essências reais” do conhecimento, do homem e da natureza.
Não há assim um ponto de partida neutro, a-histórico donde o homem reflexivo se destaca da sua comunidade e transcende sua aculturação. A transcendência de nossa aculturação deve vir antes do maior contato e dialogo que possamos estabelecer com as mais diferentes crenças e culturas existentes, “é sermos criados em uma cultura que se orgulhe de si mesma por não ser monolítica – por sua tolerância diante de uma pluralidade de subculturas, bem como por sua disposição em escutar as culturas vizinhas”(pág. 27). A imagem pragmatista da figura do intelectual seria assim bem mais daquele que, através de seus ethnos, consegue dialogar com a diferença; não de maneira apenas relativista (se abstendo de tomar posições morais), ou dum etnocentrismo cego e chulo, mas buscando a concordância de ambas as partes do diálogo.
RORTY, Richard. Objetivismo, relativismo e verdade: escritos filosóficos 1. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997. (A objetividade entendida como intersubjetividade e fundada na solidariedade).
terça-feira, 1 de março de 2011
O projeto de pesquisa em história
O livro "O Projeto de Pesquisa em História" foi publicado pela primeira vez em outubro de 2005, pela Editora Vozes. Neste início de 2011, chega à sua 7a edição, em pouco mais de cinco anos. A receptividade da obra reflete possivelmente o fato de que foi o primeiro livro sobre elaboração de Projetos de Pesquisa com ênfase específica na área de História, embora o livro também tenha se prestado às demais áreas das Ciências Humanas e Sociais, ou mesmo outras.
Assuntos mais gerais como a Delimitação do Tema, a Revisão Bibliográfica, as diferenças entre Teoria e Metodologia, ou a elaboração de Hipóteses - que podem beneficiar estudantes e pesquisadores de qualquer área de conhecimento - são alternados com questões mais específicas dos historiadores, tais como a distinção entre Fontes e Bibliografia, a determinação de um recorte espaço-temporal problematizado para a Pesquisa, a reflexão sobre o lugar de produção da operação historiográfica, ou a especificidade do texto de História.
Este equilíbrio entre questões mais amplas que remetem à Pesquisa em todas as área de conhecimento, e questões mais específicas que dizem respeito à História e às Ciências Humanas, constituem certamente um ponto de interesse que já tem possibilitado à Editora renovar as sucessivas re-edições da obra em menos de um ano.
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As referências do livro são as seguintes:
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título: O Projeto de Pesquisa em História
autor: José D'Assunção Barros
editora: Editora Vozes
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Os membros do Rede Histórica que se interessarem, poderão receber dois capítulos do livro por e-mail para conhecerem a obra. Basta deixar o e-mail ou na página de comentários, ou pedir pelo e-mail jose.assun@globo.com
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Algumas resenhas sobre a obra já foram elaboradas em revistas científicas da área de História, e uma delas foi escrita a não muito tempo pelo professor Diogo da Silva Roiz,da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, mestre em História pela UNESP, e doutorando em História pela Universidade Federal do Paraná. A resenha foi publicada pela Revista Brasileira de História e Ciências Sociais.
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Leia a resenha do livro "O Projeto de Pesquisa em História", escrita por Diogo Roiz (UEMS), em: http://ning.it/ggS7i2
Referência do livro: BARROS, José D'Assunção. O Projeto de Pesquisa em História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, 7a edição.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Anacronismo: a mordaça, a venda e o papel higiênico do historiador
O papel higiênico do historiador seria uma de suas funções para com o anacronismo, isto é, higienizá-lo, depurá-lo de suas boçalidades e cinismos. Ora, mas porque encarar algo tão caro ao historiador como o anacronismo como uma coisa tão perversa? Este é o cerne da questão. Nem tudo que o homem constrói o faz com índole má. O anacronismo surgiu para ajudar os historiadores a olhar para o passado, alertá-lo de que o seu “eu” é diferente do objeto. Seja um personagem histórico, seja um período como um todo, o anacronismo possibilita ao historiador reconhecer seus limites, o quão distante ele pode estar da verdade de qualquer acontecimento passado. Mas a utilização que os historiadores fazem do anacronismo hoje diferem em muito desse ideal.
Lembro-me da minha primeira aula de História que tive na UnB. Todos os alunos sentados, meio rígidos de ansiedade ou porque não estavam acostumados com as cadeiras do ensino público. Atentos, ou melhor, hipnotizados por aquela figura que se posiciona no fim da sala, sorvendo cada palavra do professor. Lá pelas tantas alguém ousa levantar a mão. A resposta? Não poderia ser outra se não: você está incorrendo num erro comum aos que estão começando a estudar História, respondeu o professor. Era o tal anacronismo, embora o professor não tivesse nomeado o erro. Ser anacrônico é o maior pecado que um historiador pode cometer, falar dele é sinal de sabedoria, nomeá-lo é uma blasfêmia. Quando a aula acabou percebi que alguma coisa naquilo me incomodou. Ora, antes do professor explicar eu não havia concordado com o questionamento do garoto? Havia, e de acordo com o professor eu estava pensando do jeito errado. ”Nós nunca poderemos entender o que eles realmente queriam dizer” – lembro-me exatamente de suas palavras. Sim, algo me incomodava e ia crescendo a medida que eu pensava no assunto.
“Nós nunca poderemos entender o que eles realmente queriam dizer”
O professor falou da imensa distância temporal que nos separava. Certo. E eu concordo com isso então por que eu me sentia como se minhas costas estivessem coçando num lugar que eu não conseguia alcançar?
A resposta veio em outra aula algum tempo depois, quando uma situação como aquela se repetiu, mas dessa vez o professor em questão conseguiu esmiuçar mais um pouco a respeito do “erro comum”. Um estalo, parecia desenho animado com uma lâmpada acendendo sobre minha cabeça. Ora, se nunca poderemos entender o que realmente eles queriam dizer, então o que estamos fazendo aqui? Não é justamente entender o que eles queriam dizer de fato? A resposta é tão irônica e safada que não posso deixar de esboçar um sorriso enquanto escrevo. Em outras palavras o que o professor da minha primeira aula quis dizer foi o seguinte:
“Embora nós nunca possamos entender o que eles realmente queriam dizer, se fosse possível, eu estaria muito mais perto de conseguir isso do que vocês”
De fato, estou sorrindo agora. Obviamente, o professor não diria algo assim abertamente, mesmo porque às vezes a coisa está tão entranhada que ele nem se apercebe disso. A questão é que a resposta não está – a meu ver – errada em qualquer dos sentidos mencionados, há não ser por um problema de implicidade.
Acredito mesmo que nós nunca poderemos entender o que “eles” queriam dizer, não em seu sentido absoluto pelo menos e também reconheço que pelos anos de estudo se pudéssemos fazer tal coisa seria o professor aquele que estaria provavelmente mais próximo disto.
provavelmente…
Há uma passagem em o Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams, que gostaria que vocês lessem:
“Um dia, um aluno encarregado de varrer o laboratório depois de uma festa particularmente ruim, desenvolveu o seguinte raciocínio:
Se uma tal máquina (gerador de improbabilidade infnita) é praticamente impossível, então logicamente se trata de uma improbabilidade finita. Assim, para criar um gerador de improbabilidade infinita é só calcular exatamente o quanto ele é improvável, alimentar esta cifra no gerador de improbabilidades finitas, dar-lhe uma xícara de chá pelando… e ligar!
Foi o que fez, e ficou surpreso ao descobrir que havia conseguido criar o ambicionado gerador de improbabilidade infinita a partir do nada.
Ficou ainda mais surpreso quando, logo após receber Prêmio da Extrema Engenhosidade concedido pelo Instituto Galáctico, ser linchado por uma multidão exaltada de físicos respeitáveis, que finalmente se deram conta de que a única coisa que eram realmente incapazes de suportar era um estudante metido a besta.”
Somos historiadores e em vez de complicados teoremas, trabalhamos normalmente com dicotomias como rupturas e continuidades. Ainda assim, apesar da diferenças, há pontos em comum que perpassam o ambiente acadêmico em si. Aquele apontado por esse texto é o da hierarquia do conhecimento. E para impedir que essa hierarquia seja desrespeitada os historiadores inventaram e/ou se apropriaram de um mecanismo muito eficaz: o Inominável Senhor dos Erros Históricos, anacronismo.
O anacronismo, e nós chegamos no meio do título, quando usado para a manutenção da Hierarquia do Conhecimento funciona como uma venda nos olhos dos historiadores iniciantes . Costuma embaçar a visão do historiador e impedi-lo de pensar por si mesmo. Por isto devemos recorrer aos Grandes Autores, Senhores do Conhecimento Que Quase Chegaram Lá Na Verdade Absoluta. Se pensamos algo diferente deles seremos execrados publicamente. Também, como pode um estudante estúpido contradizer um longo e detalhado estudo sobre os costumes romanos?
Gostaria agora de contar uma historinha dessas que nos mandam por e-mail.
Era uma vez numa praia, um garoto correndo pela areia, pegando as estrelas-do-mar e atirando-as de volta às águas. Nisto, um velho está sentado por ali há algum tempo, acompanhado o trabalho incansável do garoto. Ele levanta-se e vai até o menino.
“Ei rapaz! Venha, venha. Deixe-me falar contigo”
Quando o garoto se aproxima o velho diz:
“Não percebe o quão inútil é isto que está fazendo?”
O garoto pensa um pouco e responde:
“Não, o que é?”
“Jogue esta estrela-do-mar que está na sua mão e verá”
O garoto obedece e joga a estrela no mar. Eles ficam parados por um tempo e o menino olha intrigado para o velho que olha paciente para o mar.
Então, uma onda trás de uma vez só três estrelas-do-mar ao longo da praia.
“Vê? A cada uma que você atira de volta o mar traz outras três. Elogiável o seu esforço em ajudar as pobres criaturas, mas observe: o mar ao contrário de você, não se cansa nunca e continuará a trazer estrelas-do-mar independente do seu esforço. Entendeu? Não faz diferença.”
O velho lhe dirige um olhar bondoso quando o mar coloca uma estrela-do-mar bem aos pés do garoto. O garoto a pega e a atira de volta.
“Fez diferença para essa”
Por mais que nossa vida tenha nos ensinado muita coisa, sempre podemos aprender um pouco mais. O velho da historinha do alto de sua sabedoria tomou no dizer de um amigo meu: uma bela duma catracada. Não que ele estivesse errado veja só. O velho estava simplesmente olhando em outra direção. Enquanto mirava seus pensamentos na lógica da vida, o garoto que nada entendia de lógica olhou para a estrela-d0-mar.
Este é o verdadeiro anacronismo, aquele que nos impede de enxergar o outro, mesmo quando ele não está há mil anos de distância, mas bem aqui na nossa frente falando algo que você acredita ser absurdo, mas não dar sequer uma chance de realmente ouvir o que ele está dizendo. E aqui vamos para a última parte que na verdade é o início do título: o anacronismo como mordaça do historiador.
Quando conseguimos espiar por baixo da venda do anacronismo, ainda assim há um grilhão tão assustador quanto o segundo. A mordaça do anacronismo nos impede de emitir nossas opiniões.
Só recentemente consegui conversar seriamente com um amigo a respeito do comunismo. Isto porque eu tenho mania de dizer que Jesus foi um comunista. Esse amigo meu fica louco quando digo isso.
”Como você pode dizer uma coisa dessas?! A palavra comunismo está carregada de significados contemporâneos que são impossíveis de serem aplicados no passado”
Por causa do anacronismo até então ele nunca ouvira o que eu realmente tinha a dizer sobre o assunto. Era engraçado quando isso acontecia porque nós discutimos centenas de coisas triviais e minha opinião sempre é levada em conta. Menos quando discutimos sobre comunismo. Aí eu tenho que me calar porque sou anacrônico, isto é, burro. Quando falo de Cristo ser comunista, é porque enxergo semelhanças essenciais no que o comunismo traça como ideal de humanidade e nas coisas que Cristo dizia (ou pelos menos que dizem que esse tal de Cristo falou).
Certa vez um jovem interpelou Jesus e lhe pediu que lhe ensinasse o caminho para o Reino dos Céus. Jesus lhe disse que seguisse os mandamentos e amasse ao próximo como a si mesmo. Ao que o jovem responde:
Transcrição de parte do capítulo 19, em Mateus:
20. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?
21. Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me.
22. E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades.
23. Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus .
24. E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.
Ora, pode haver algo mais comunista que isso? É o desejo latente pela igualdade. O olhar severo para com pessoas de muitas posses, não porque fossem pessoas más, mas simplesmente porque as coisas materiais não significam absolutamente nada na vida – leia-se Vida Eterna - do homem, mas mais que isso. E é aqui que está o comunismo: o homem está tão apegado às suas posses que pode escolhê-las a entrar no Reino dos Céus.
Como funciona o anacronismo aqui?
Comunismo foi um termo inventado por Marx. Jesus não viveu no tempo de Marx. Na Galiléia não havia indústrias e consequentemente não havia proletariado para fazer uma revolução e instaurar o socialismo, logo o comunismo é impraticável na época de Jesus, uma vez que segundo Marx, é preciso primeiro ter um regime socialista para se chegar ao comunismo.
É mais ou menos isso. Engraçado é que até mesmo quem odeia Marx sabe isso de có. Mas quem falou em Marx? Quem falou em indústrias, proletariado e socialismo? Querem atribuir um sentido às minhas palavras que não são minhas. Mas eu não tenho direito de pensar, Marx já pensou por mim. A partir de momento que o comunismo deixou os pensamentos de Marx , saltou sobre sua língua e atravessou por entre seus dentes o comunismo não mais o pertencia.
O bom anacronismo é capaz de identificar isso. Um dos pressupostos do anacronismo é que as palavras não permanecem imutáveis ao longo do tempo, elas são antes construções culturais de uma sociedade, e a sociedade é um organismo gigante e se eu posso acordar pensando numa coisa e dormir achando outra, imagine algo tão complexo como nossa civilização?
Os anacronistas fetichistas adoram acusar os marxistas de serem anacrônicos por não seguirem a linha do raciocínio de Marx. Imagine então pensar a sociedade hoje tal como Marx pensava há um século, quando é o próprio anacronismo que indica a reformulação dos conceitos.
Se o anacronismo então serve para me amordaçar, jogar-me num calabouço escuro e frio, sozinho, então eu prefiro limpar a bunda com ele.
Como todo bom contador de histórias eu comecei o título pelo fim, fui ao começo e tornei ao fim.
Bill, estudante do 7º semestre de História pela Universidade de Brasília.