“Eu tenho um conto sobre um homem que decide desenhar o mundo. Então, senta frente a uma parede branca – nada impede que pensemos que essa parede é infinita -, e o homem começa a desenhar todo tipo de coisas: desenha âncoras, desenha bússolas, desenha torres, desenha espadas, desenha bengalas. E continua desenhando assim, durante um tempo indefinido – porque ele teria atingido a longevidade. E enche essa longa parede de desenhos. Chega o momento de sua morte, e então lhe é permitido ver – não sei muito bem como -, com uma só olhada, toda sua obra, e percebe que o que desenhou é um retrato de si mesmo. Agora, eu acho que essa parábola ou fábula minha poderia se aplicar aos escritores, ou seja, um escritor pensa que fala de muitos temas, mas o que realmente deixa é, se tiver sorte, uma imagem de si próprio.” Jorge Luís Borges
quarta-feira, 2 de junho de 2010
História dos Conceitos
“O trabalho de recuperação dos sentidos originais é, como se vê, penoso. O sentido superficial tem que ser afastado para deixar dar lugar às camadas sucessivas de sentidos subjacentes. Como na arqueologia, a escavação do texto tem que progredir por camadas. Os achados de cada uma delas têm que fazer sentido a esse nível. O modo como eles foram posteriormente recuperados pode ser objeto de descrição; mas isso é já uma outra história – a história da tradição.” Antonio Manuel Hespanha
Um dos grandes perigos que ronda o trabalho do historiador é o anacronismo. Esforçando-se para não ler o passado a partir de categorias do presente, ele procura se afastar para não projetar a sua realidade naquela que ele examina.
A análise dos conceitos também passa por esses cuidados. Todo conceito se prende a uma palavra, mas nem toda palavra é um conceito social e político. Os conceitos são vocábulos que reúnem em si diferentes totalidades de sentido.
Os conceitos não são atemporais. Eles apresentam, como em camadas, temporalidades distintas. Através da linguagem, eles traduzem as mudanças na experiência humana. “Os momentos de duração, alteração e futuridade contidos numa situação política concreta são apreendidos por sua realização no nível lingüístico. Logo, é importante saber a partir de quando os conceitos passam a ser empregados de forma tão rigorosa como indicadores de transformação social e política de profundidade histórica”.
As camadas evidenciam o processo de ressignificação: recorrer ao velho estoque de palavras para expressar o novo que ocorre, a ruptura que está acontecendo. Esse processo, assim como os neologismos, transforma o campo da experiência política e social definindo novos horizontes de expectativa.
Segundo Koselleck, a história dos conceitos, que está ligada á filologia, não pode prescindir da história social. É uma relação de dependência. Sem conceitos comuns não pode haver sociedade nem unidade política Por outro lado, os conceitos fundamentam-se em sistema políticos sociais no tempo.
Tomemos a palavra “revolução” como exemplo. De início ela designava o movimento dos astros, indicando um movimento constante e de retorno. Quando ela foi usada para nomear os acontecimentos políticos da Inglaterra no século XVII (“Revolução Gloriosa”) foi para indicar o retorno à ordem constituída, a restauração da monarquia. Tanto que em alguns textos esse acontecimento é retratado como “Restauração Inglesa”. Já no século XVIII, o significado da palavra “revolução” muda a partir da experiência política francesa. Ou seja, um elemento daquele velho estoque de palavra foi usado para indicar uma ruptura, a eclosão do novo, uma mudança estrutural.
Logo, é preciso que o historiador recupere a estranheza diante das palavras, diante dos conceitos; tornando um hábito desconfiar daquilo que parece óbvio.
Falando nisso, como foram designadas as rupturas na vida política nos períodos em que esse conceito moderno (‘moderno’ também tem de camadas, mas isso fica para outro post...) revolução ainda não existia?
Referências Bibliográficas:
HESPANHA, Antonio Manuel. Panorama Histórico da cultura jurídica européia. Lisboa: Europa-América, 1998.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
História e Música I: INTRODUÇÃO
Como mais um exemplo da diversidade das relações da história, abrimos hoje um espaço para história e música. Teremos uma série de posts que traçam um paralelo entre a representação do jovem em duas músicas da banda de rock Legião Urbana com a representação do teenager do pós-guerra nos EUA. Seguir-se-á uma exposição sucinta sobre a história do rock and roll, desde o seu surgimento até suas ressonâncias no cenário brasiliense. Depois serão analisadas as músicas “Geração Coca-Cola” e “ Dezesseis”.
Os textos dialogam com o já não tão recente movimento na historiografia brasileira empenhado em servir-se da produção de canções populares para a composição narrativa – peculiar ao discurso acadêmico – do contexto de determinada época, bem como, para servir-se desse material como objeto mesmo da análise historiográfica.
Tendo em mente as peculiaridades fonográficas e as questões de mercado inerentes a esse tipo de troca simbólica, a música popular constitui material valioso ao historiador por sua importância na formação dos imaginários e por remeter a representações e discursos com os quais estabeleciame relações de alinhamento ou oposição. Dessa forma, a música se torna uma fonte para a historiografia discursar sobre determinado período.
Entretanto, a análise das canções populares não se esgota na sua relação com o contexto de uma época. Uma vez que, estando atenta às especificidades das linguagens do duplo eixo verbal-musical da canção, pode buscar sentidos de interesse ao discurso ao qual se filia e produz, que não seriam necessariamente os mesmos que musicólogos buscaram. Questões como a recepção, diálogo com as tradições, a performance e seus veículos, entre outras podem pautar o trabalho do historiador interessado em pesquisar essa área.
Amanda Camylla e Thiago Dornelles são alunos do quinto semestre de História na UnB
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Trecho de entrevista de Michelle Perrot.
a história?
Michelle Perrot - Sim e não. Sim na medida em que a questão da mulher e da relação entre os sexos - que é mais importante ainda - foi colocada pelas mulheres. Os homens tomam a palavra homem no sentido universal. Os homens não são todo mundo. Pelas interrogações, pelo assunto, há uma interrogação e um ponto de vista feminino de abordar a história. Mas de outro lado não, porque o método, a forma de trabalhar de procurar as fontes, de escrever, não se diferencia do que eu fazia antes. Eu apliquei à história das mulheres as práticas e o método que utilizei na história operária. Deste ponto de vista não posso dizer que tenha dado um novo método. Senti com as mulheres a dificuldade do "invisível" da invisibilidade da história. Por que é certo, os operários são invisíveis na história, mas menos do que as mulheres porque os operários tem um movimento operário desde o século XIX, fazem greves, estão nas fábricas, criam
sindicatos, enquanto as mulheres tem muito pouco disso. Como dizia o sindicalista Fourier, elas são "o proletário dos proletários".
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Mostra da Expedição Langsdorff pelo interior do Brasil
A exposição apresenta o percurso da expedição Langsdorff pelo interior do Brasil, desde 1821 até 1829, através de um conjunto de 156 obras, que inclui desenhos e aquarelas de Johann Moritz Rugendas, Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence e mapas do cartógrafo Nestor Rubtsov. A coleção mostra imagens da flora, fauna, paisagens e população documentadas ao longo do trajeto do Rio de Janeiro ao Pará, convidando o público a observar as transformações nestas regiões nos últimos 180 anos. Data: 11 de maio a 18 de julho Visitação: Terça a domingo, das 10h às 21h Local: CENTRO CULTURAL DO BANCO DO BRASIL |
sexta-feira, 14 de maio de 2010
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Carlos Drummond de Andrade. Museu da Inconfidência
E memórias nos autos.
As casas inda restam,
Os amores, mais não.
E restam poucas roupas,
Sobrepeliz de pároco
E vara de um juiz,
Anjos, púrpuras, ecos
Macia flor de olvido,
Sem aroma governas
O tempo ingovernável.
Muitos pranteiam. Só.
Toda a história é remorso."

