terça-feira, 20 de abril de 2010

Representação

por Amanda Camylla Pereira Silva*

A noção de representação é muito importante para a maneira pela qual são tratados e vistos os documentos e as fontes, e, principalmente, define o que é e qual o objetivo de uma historia cultural.
Para Robert Darnton a noção de representação se constitui como a maneira pela qual as pessoas comuns organizavam a realidade em suas mentes expressando-se em comportamentos e práticas sociais. Apesar das representações possuírem expressões individuais, estas estariam condicionadas por um “idioma geral”, ou seja, um conjunto de símbolos compartilhados, uma estrutura fornecida por cada cultura que criaria possibilidades de expressões, mas também as limitaria. Assim, o historiador deve estudar essas representações passadas, buscando, para isso, captar a diferença e os significados inscritos no que quer que sobreviva da visão de mundo desse passado. Deve-se então, ser capaz de perceber como as culturas formularam maneiras de pensar.

Para Sandra Pesavento as representações são operações mentais e históricas, que criam sentidos ao mundo, sem elas este, em si, não possui significado. É por meio delas que se age no mundo, que se constroem identidades. Nesse sentido a representação fica no lugar da realidade, porém, não como uma imagem perfeita do real: o representante não é o representado, ele guarda relações de semelhança, significado e atributos com este. As representações se expressam nos discursos, assumindo múltiplas configurações, as quais se tornam concorrentes, estabelecendo relações de poder. Assim, a percepção dominante acaba ganhando foro de realidade, de verdade, sendo naturalizada.

À historia cultural cabe, portanto,tentar entender as significações das práticas cotidianas de uma dada época, ou seja, a maneira como as pessoas liam o mundo. Essas representações passadas são acessadas pelo historiador por meio dos documentos e das fontes, que por sua vez também se constituem como representações, já se colocam no lugar do acontecido. “A historia cultural se torna, assim, uma representação que resgata representações, que se incumbe de construir uma representação sobre o já representado” (2003, p. 43). E nessa recuperação das representações antigas o historiador se depara com um “outro”, resgatando uma diferença.

Já para Roger Chartier, representações dizem respeito ao modo como em diferentes lugares e tempos a realidade social é construída por meio de classificações, divisões e delimitações. Esses esquemas intelectuais criam figuras as quais dotam o presente de sentido. Assim, pode-se pensar numa “história cultural do social que tome por objeto as representações do mundo social”.

Chartier também acredita que esses códigos, padrões e sentidos são compartilhados, e apesar de poderem ser naturalizados, seus sentidos podem mudar, pois são historicamente construídos e determinados pelas relações de poder, pelos conflitos de interesses dos grupos sociais. Para Chartier, assim como para Pesavento, as representações são expressas por discursos. Entretanto este autor levanta uma questão, a saber : as formas diferenciadas com que os indivíduos apreendem os discursos que dão a ver e a pensar o real. Para ele as leituras dos discursos feitas pelos sujeitos e a conseqüente produção de sentido são determinadas por certas condições e processos, como por exemplo, da relação móvel entre texto e leitor. Assim, há uma pluralidade dos modos de emprego dos discursos e uma diversidade de leituras que devem ser evidenciadas, revelando que as categorias aparentemente invariáveis são construídas historicamente.

De acordo com Chartier a historia cultural estuda, por um lado, as classificações e exclusões que constituem a configuração social de determinada época e espaço, questionando a existência das estruturas sociais como um real em si mesmo, enquanto as representações são apenas seus reflexos, e, por outro lado, as práticas que, pluralmente, e contraditoriamente, atribuem sentidos ao mundo, rompendo assim com a idéia de que os textos possuem um sentido intrínseco.


Referências Bibliográficas:

CHARTIER, Roger. História Cultural – Entre práticas e representações. Lisboa/Rio de Janeiro: Difel/Bertrand Brasil, 1990. [na BCE: 930.85 C486c =20]


DARNTON, Robert. O grande massacre dos gatos. 2 ed., Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. [ na BCE : 394(44) D223g =690 5. ed. ]


PESAVENTO, Sandra Jathay. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. [ na BCE: 930.85 P472h 2. ed.]


* Amanda Camylla Pereira Silva é aluna do quinto semestre de História na Universidade de Brasília (UnB).



3 comentários:

  1. A pretensão da história é, portanto, representar (tornar presente novamente) um corpo social através da escrita?

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  2. Olá, boa pergunta. Não sei se a Amanda concorda, mas penso que o conceito de representação é diferente de "tornar presente novamente", porque o ato de representar pressupõe uma ausência, uma diferença temporal. Observo que a história tem muitas correntes e opções teóricas, nem todas trabalham com o conceito de representação. Pessoalmente, duvido que alguma delas tenha uma resposta definitiva para questão tão abrangente. No máximo, podemos falar das pretensões deste e daquele historiador.

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  3. Eu concordo com o Daniel. Primeiro acredito que é complicado falar em "tornar presente novamente" porque reconhece-se o limite que é imposto à historia, pois o que o historiador possui são apenas vestigios do passado e não há como abarca-lo por inteiro Segundo, representar para mim também não é "tornar presente novamente", mas sim atribuir sentidos , criar uma "imagem" sobre algo. Para mim, a historia cultural propõe "rastrear" esses sentidos de outras épocas...a única experiência mais próxima que tive até agora com a prática da historia cultural foi meu artigo e o que tentamos fazer foi buscar o que era o jovem naquelas músicas, quais suas caracteristicas, o que ele significava socialmente, considerando o recorte de tempo e de lugar social de onde saiu aquela construção...penso que a historia busca quais os significados e valores das representações passadas e como elas organizavam e guiavam a vida social; são sentidos em cima de sentidos...E como o Daniel disse, há outras correntes e teorias...

    Amanda

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